Quem nunca saiu de uma prova de concurso com a certeza de que havia acertado uma questão, só para descobrir depois que caiu em uma “pegadinha”? A frustração é quase unânime entre os concurseiros, e a frase “a banca é maldosa” costuma ser repetida como um desabafo.
Para Marco Brito, diretor pedagógico do curso CENTRAL DE CONCURSOS, o problema não está exatamente na maldade da banca, mas em uma possível falta de preparo do candidato para o jogo que está sendo disputado.
“A banca não acorda de manhã pensando em como derrubar você, especificamente. Ela acorda pensando em como selecionar os candidatos que realmente dominam o conteúdo. E para isso, usa técnicas muito específicas de elaboração de questões. Se você aprende essas técnicas, deixa de ser vítima e passa a jogar o mesmo jogo”, explica.
Para o diretor pedagógico da CENTRAL DE CONCURSOS, pensar como o examinador, portanto, não é um dom misterioso, mas uma habilidade treinável. Segundo Brito, grande parte das pegadinhas segue arquétipos que podem ser catalogados.
Conheça as ‘pegadinhas’ mais utilizadas pelas bancas
O primeiro e mais comum é a inversão de conceitos ou palavras. A banca altera um termo por outro muito próximo, mas com significado jurídico ou técnico distinto. Exemplos clássicos: trocar “exclusivamente” por “preferencialmente”, “impedimento” por “suspeição”, “anulação” por “revogação”.
“Quando você lê a lei seca, é preciso grifar esses advérbios e adjetivos como se fossem faróis. O examinador vive de trocar essas palavras, e quem não está atento a elas cai redondo”, alerta.
Outro padrão é a absolutização indevida. Afirmações que contêm palavras como “sempre”, “nunca”, “somente”, “todos” costumam ser falsas, porque no Direito e nas disciplinas administrativas a regra quase sempre comporta exceções. No entanto, Marco faz uma ressalva importante.
“Também não caia na armadilha de achar que toda afirmação absoluta é falsa. Justamente por saber que o candidato tem essa crença, a banca de vez em quando coloca uma frase absolutizada que é verdadeira, para pegar o espertinho. A solução é saber o conteúdo e, quando aparecer um ‘sempre’, ligar um alerta vermelho e buscar a exceção mentalmente. Se a exceção não existir, a alternativa pode estar correta.”
Conforme explica Brito, as bancas também adoram explorar o confronto entre a lei seca e a jurisprudência atualizada. “É o tipo de questão que pega o concurseiro que só leu a lei e não acompanhou os informativos. A lei diz uma coisa, mas o STF ou o STJ deram uma interpretação conforme, modularam efeitos ou decidiram de forma diversa. Se você não sabe o que o tribunal decidiu, vai marcar a alternativa que reproduz a lei e errar”, explica Brito.
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Um quarto padrão são os enunciados longos com distratores nas primeiras linhas. A banca despeja um texto introdutório extenso, muitas vezes com informações irrelevantes ou ligeiramente erradas, que confundem o candidato antes mesmo de ele chegar ao comando da questão.
“A dica é ler o comando e as alternativas antes de voltar ao enunciado. Assim você sabe exatamente o que está procurando e não se perde no meio do caminho. É como entrar em um labirinto com o mapa da saída”, orienta.
Por fim, há as questões que testam a literalidade, mas de forma capciosa. A banca reproduz um artigo de lei, mas altera uma única palavra no meio, ou acrescenta uma negação que inverte o sentido.
A orientação é treinar o olho para identificar essa alteração sutil. Brito sugere um exercício simples: “Pegue um artigo importante e reescreva-o trocando apenas uma palavra. Depois, peça para um colega encontrar o erro. Isso aguça a percepção para o que o examinador faz.”
Reescrever a questão é estratégia eficiente
Uma das estratégias mais poderosas que Brito recomenda é exatamente se colocar no lugar do organizador. O exercício é o seguinte: escolha dez questões já cobradas pela banca para a qual você está se preparando. Responda-as normalmente. Depois, tente reescrevê-las de modo que o gabarito mude. Se era “certo”, transforme em “errado”, e vice-versa, alterando apenas um detalhe. “Quando você tenta enganar, você descobre como se engana. Entender a engenharia da questão é muito mais eficaz do que simplesmente resolvê-la”, afirma Marco.
Ao final, Marco Brito insiste que pensar como a banca não é um bicho de sete cabeças, mas um treino contínuo. “Ninguém nasce com malícia de examinador. Ela se adquire com exposição às questões, com análise de erros e com humildade para estudar não só o conteúdo, mas a forma como ele é cobrado.”
O diretor pedagógico da CENTRAL DE CONCURSOS recomenda que, após cada bateria de exercícios, o candidato se faça três perguntas:
1 – Eu errei porque não sabia o conteúdo ou porque fui enganado?
2 – Qual foi o mecanismo de engano usado pela banca?
3 – Como eu posso me vacinar contra isso na próxima?
Com essa rotina de estudo ativo, a “banca maldosa” deixa de ser um adversário incompreensível e se torna um oponente cujos movimentos são previsíveis e, portanto, dribláveis. “A prova é um jogo de xadrez, não um jogo de azar. E no xadrez, quem pensa dois lances à frente ganha a partida”, finaliza Brito.
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