Todo semestre a cena se repete na secretaria da CENTRAL DE CONCURSOS. Um aluno chega decidido a largar o emprego para estudar em tempo integral, convencido de que só assim vai conseguir a aprovação. Outro entra perguntando qual a apostila que vai lhe garantir a aprovação no concurso dos sonhos. E há sempre aquele — talvez o mais frequente de todos — que confessa, meio sem jeito, que estuda há um ano e nunca fez um simulado completo, porque "ainda não terminou a teoria".

São histórias diferentes, mas com a mesma raiz. Por trás de cada uma delas existe uma crença repetida de aluno para aluno, de turma para turma, quase como um folclore do concurseiro. E é esse folclore que ocupa boa parte do trabalho de quem está à frente da coordenação pedagógica de um curso preparatório.

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Para Marco Brito, diretor pedagógico da CENTRAL DE CONCURSOS, o roteiro é tão previsível que virou parte do ofício. "Muitas vezes, temos que gastar boa parte do nosso tempo para desmontar uma ideia errada que o candidato trouxe de casa", diz.

Segundo ele, esses mitos não nascem de falta de inteligência ou de preguiça — nascem de um senso comum que parece lógico à primeira vista, mas não resiste à rotina real de quem estuda para prova. E o preço de acreditar neles, avalia, costuma aparecer tarde demais, quando a prova aconteceu e o resultado já saiu.

A seguir, Marco Brito cita os cinco mitos mais recorrentes que as pessoas têm sobre concursos e mostra porque devem ser deixados de lado. Confira:

1 – "Preciso largar tudo para ser aprovado"

É o mito mais caro de todos, na avaliação do diretor pedagógico da CENTRAL DE CONCURSOS. Segundo ele, largar o emprego reduz a pressão do relógio, mas cria outra pressão, mais pesada e mais difícil de administrar: a financeira.

"O candidato que largou tudo estuda com medo. E medo não fixa conteúdo", afirma. Para Brito, a rotina de quem concilia trabalho e estudo costuma ser mais disciplinada justamente porque o tempo é escasso e precisa ser defendido. "Quem tem três horas por dia usa as três. Quem tem 12 usa seis, e mal — porque sobra tempo para procrastinar. A verdade é que a maior parte daqueles que são aprovados e ingressam no serviço público não precisaram largar o emprego para estudar. É perfeitamente possível conciliar as duas coisas", garante.

2 – "Vou fazer questões só depois que terminar a teoria"

Aqui está, para o especialista em concurso, o erro de método que mais atrasa preparação. O candidato passa meses acumulando conteúdo sem nunca testar se aquilo se sustenta diante de uma prova real. Quando finalmente abre um caderno de questões, descobre que decorou o que a banca não cobra e ignorou justamente o que ela cobra todo ano, edital após edital.

"Questão não é revisão. Questão é diagnóstico. A orientação é começar a resolver exercícios no mesmo dia em que o assunto é estudado, ainda que o desempenho inicial seja ruim. O erro cedo é barato. O erro na prova é caro."

3 – "Existe um material definitivo e perfeito"

A busca pelo livro perfeito, pelo PDF definitivo e pela apostila que garante a aprovação permeia a cabeça dos alunos, sobretudo os iniciantes no universo dos concursos. Brito diz reconhecer o padrão de longe: é quase sempre uma forma elegante de procrastinar sem se sentir culpado por isso.

"Trocar de material dá a sensação de progresso sem exigir esforço de fato. A pessoa passa o sábado inteiro comparando apostila e termina o dia sem ter lido uma linha de conteúdo."

A recomendação do especialista é escolher um material de boa qualidade, produzido por uma boa equipe pedagógica, e permanecer nele até o fim da preparação para aquele edital. “Muitas vezes, revisar em fonte diferente da que foi estudada originalmente costuma gerar retrabalho em vez de reforço”, explica.

Fora isso, ele lembra que não basta ter um bom material de estudo: é preciso dedicação, esforço e resiliência, bem como estar atento às orientações e dicas dos professores. “Ninguém passa em um concurso só lendo PDFs ou apostilas. É preciso assistir às aulas, tirar suas dúvidas com os professores, revisar conteúdos e fazer muitas questões e simulados”, afirma.

4 – "Reprovei porque não estudei o bastante"

O diagnóstico automático depois de um resultado ruim costuma ser sempre quantitativo: faltou hora, faltou disciplina. Brito discorda na maioria dos casos que acompanha de perto. "Quando eu pego a folha de respostas e comparo com a rotina do aluno, o problema raramente é volume. É distribuição do tempo."

O padrão típico, segundo ele: o candidato dedicou 70% das horas de estudo às disciplinas de que mais gosta e deixou Informática, Raciocínio Lógico ou Legislação Específica para as últimas semanas — exatamente as matérias que, no fim, definiram a classificação final.

“Não se deve ocupar a maior parte do tempo com as matérias que mais agradam. As horas de estudo que devem ser destinadas a cada disciplina precisam ser proporcional à quantidade de questões e peso que terá na prova”, orienta.

5 – "Decorar lei seca é perda de tempo"

O último mito, segundo o diretor, nasceu de uma leitura torta de um discurso correto contra a memorização vazia. "Ninguém deve decorar sem entender. Mas existem dispositivos que caem literalmente, com a palavra trocada de propósito, e nesses casos entender o espírito da lei não basta", diz. Prazos, competências e rol de atribuições costumam entrar nessa categoria.

A saída que o diretor pedagógico da CENTRAL DE CONCURSOS indica não é a repetição mecânica, e sim uma memorização apoiada em questões. “O só deve voltar ao texto da lei depois de errar uma questão sobre ela. Ele deve voltar apenas ao trecho específico em que errou e não ao artigo inteiro”, recomenda.

Brito faz questão de finalizar suas orientações com uma ressalva: nenhum desses mitos é sinal de preguiça ou de falta de inteligência do candidato. “Eles são atalhos que parecem lógicos à primeira vista, construídos sobre um senso comum compreensível. O problema é que concurso não premia lógica de senso comum. Premia método", resume.

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