O governo federal vai contratar mais de 20 mil servidores até o fim do terceiro mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, segundo a ministra da Gestão e da Inovação em Serviços Públicos (MGI), Esther Dweck.

Ao mesmo tempo, o país deve enfrentar um grande desafio nos próximos anos: mais de 180 mil servidores devem se aposentar até 2035, abrindo espaço para uma renovação significativa no quadro funcional da União.

A previsão de contratações já supera os 18 mil postos estimados pela própria ministra no início de 2023, quando assumiu a pasta. Só o Projeto de Lei Orçamentária Anual (Ploa) de 2026 autoriza 11.382 vagas, incluindo concursos em andamento e novos editais.

Desse total, 3.652 serão destinadas aos aprovados na segunda edição do Concurso Público Nacional Unificado (CNU), o chamado “Enem dos Concursos”, que tem prova prevista para 5 de outubro e atraiu mais de 760 mil inscritos.

Além dessas vagas, universidades e institutos federais ligados ao Ministério da Educação deverão abrir mais de 22 mil postos. Segundo Dweck, o esforço atende à necessidade urgente de recomposição do quadro de servidores após quase uma década de escassez de concursos e diante da iminente onda de aposentadorias.

Envelhecimento do quadro e déficit de pessoal

Em entrevista concedida ao Correio Braziliense, a ministra destacou que praticamente todas as áreas da administração pública federal sofrem com a falta de pessoal. O problema se intensificou após a reforma da Previdência de 2019, que acelerou pedidos de aposentadoria. Hoje, a idade média do funcionalismo gira em torno de 60 anos em muitas regionais.

“E o interessante é que a entrada tem sido de uma idade não tão jovem, mas bem abaixo da idade média atual, em torno de 30 e poucos anos, 40 anos”, afirmou Dweck. Para ela, esse movimento representa a chegada de servidores mais experientes, vindos tanto do setor público quanto do privado.

No que tange ao calendário de 2026, ano de eleições municipais, a ministra diz que há limitações à abertura de novos concursos. Segundo Dweck, o foco será chamar aprovados de certames já realizados e homologar cadastros de reserva.

“O próximo ano é mais difícil. Autorizações de novos concursos devem ser poucas. O que deve ter, tanto neste ano quanto no ano que vem, é a nomeação dos concursos que estão em curso, como Polícia Federal, Concurso Público Nacional Unificado (CNU), etc.”

O objetivo do governo é acelerar a posse de novos servidores antes do meio do ano, prazo limite imposto pela legislação eleitoral.

Reforma administrativa: avanços e desafios

Paralelamente às contratações, a equipe econômica e a pasta da Gestão têm conduzido mudanças consideradas parte de uma reforma administrativa em curso. O governo ampliou de 30% para 86% o número de carreiras com 20 níveis de progressão, criou e consolidou carreiras transversais — como as de analista de tecnologia da informação e analista técnico de política social — e regulamentou o estágio probatório, reforçando a avaliação de desempenho dos servidores.

“Na nossa reforma, fizemos uma regulamentação do estágio probatório para ele ser um período de teste. Então, uma vez que ela passe por essa etapa, esperamos que ela fique por um bom tempo no serviço público”, explicou a ministra, ao longo da entrevista ao jornal Correio Braziliense.

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Um dos pontos mais delicados do debate é o combate aos supersalários, tema que avança em paralelo às medidas internas do Executivo. Dweck tem participado de reuniões com o deputado Pedro Paulo (PSD-RJ), coordenador do grupo de trabalho sobre a reforma administrativa na Câmara. “Na parte específica do combate aos privilégios e aos supersalários, temos convergências na ideia de que é preciso fazer isso”, afirmou.

Apesar dos avanços, a ministra reconhece que uma reforma mais ampla só terá chance de aprovação caso seja construída a partir de um pacto entre os Três Poderes e órgãos como Ministério Público e Defensoria Pública da União. “A real chance política de passar isso é se houver um consenso político”, frisou.

Governo espera dar fôlego a órgãos estratégicos

De 2016 para cá, o Executivo federal perdeu mais de 76 mil servidores, parte substituída pela transformação digital, mas outra parcela ainda precisa ser recomposta. Com a chegada de novos concursados, o governo espera dar fôlego a órgãos estratégicos, sem abrir mão da profissionalização e da estabilidade.

Segundo Dweck, a aposta é em carreiras mais transversais, capazes de atender diferentes áreas conforme a demanda. Essa flexibilidade, aliada à entrada de novos quadros e à modernização administrativa, deve garantir a renovação necessária para enfrentar o grande volume de aposentadorias previstas.

No horizonte, o governo Lula projeta fechar 2026 com a marca de mais de 20 mil novos servidores nomeados, enquanto o Congresso discute ajustes estruturais para o futuro do serviço público. Entre o desafio de equilibrar contratações e contenção de privilégios, a agenda da gestão pública se firma como um dos pilares estratégicos do país para a próxima década.

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